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setembro 26, 2004

A Vitória de Sócrates

A eleição para Secretário Geral do PS deu um resultado à primeira vista bastante surpreendente: uma votação muito pouco significativa em Manuel Alegre e em João Soares. José Sócrates teve assim uma vitória esmagadora. A votação pouco expressiva nos adversários de Sócrates foi claríssima no seu significado: a deriva esquerdista do PS de Ferro Rodrigues, que o trouxe a reboque do BE nos últimos 2 anos, dispõe de um apoio muito minoritário dentro do PS.

Como é normal nas facções radicais, a sua expressão mediática é muito superior à sua efectiva representação no corpo social em que se movem. A sua truculência e a forma como menorizam aqueles que não partilham as suas opiniões confere-lhes um peso comunicacional completamente desproporcionado em face do peso social das suas convicções. Os seus líderes ficam de tal forma empolgados pelo ruído que produzem, que se atribuem, a si próprios, uma aceitação social muitíssimo superior à que realmente têm.

E não são apenas os líderes radicais: os próprios fazedores de opinião acreditam nessa quimera. É normal, é sempre assim, foi sempre assim, mas a opinião “publicada” nunca acredita. Numa próxima vez, com os mesmos ou outros protagonistas, qualquer que seja o cenário, a opinião “publicada” voltará a atribuir às teses da esquerda radical um peso social muito superior àquele que ela tem efectivamente.

E, devido a isso, surgem depois acusações diversas sobre o porquê do “enviesamento” da votação. No limite, o próprio sistema representativo é contestado, atribuindo-se-lhe toda a espécie de vícios e de não reflectir “os sentimentos profundos das populações”, quando o que não reflecte é o excessivo ruído emitido pelos líderes radicais.

No caso destas eleições, Manuel Alegre, a “alma da esquerda socialista”, mostrou-se sempre convicto de um resultado muito superior, que lhe permitisse, no mínimo, fazer posteriormente valer, com o apoio dos votantes de João Soares, o pleno da alma esquerda socialista. Foi completamente esmagado mas, apesar disso, na sua declaração final, falou com a veemência, a convicção e a autoridade de quem tinha tido 49,9% ...

Todavia, a vitória de José Sócrates não foi apenas a recusa da deriva esquerdista do PS de Ferro. Foi também a vitória dos meios do PS que apostam na carta Sócrates única e exclusivamente para regressarem ao poder. Ora esse grupo que anseia pelo regresso ao poder já mostrou, durante o governo guterrista, que não tem competência, que não tem rigor financeiro, que governa vendendo ilusões e apostando no laxismo para anestesiar a opinião pública e se manter ao leme do Estado.

Sócrates cometerá um enorme erro se se deixar amarrar a essa gente. Mas terá, certamente, dificuldade em evitá-lo. O PS é um partido onde os quadros oriundos dos meios empresariais têm pouca expressão Os seus quadros vêm fundamentalmente do aparelho do Estado (incluindo as universidades) e do próprio aparelho interno e têm uma ideia escolástica ou livresca do funcionamento tecido produtivo português. E quando se tem uma ideia livresca é fácil construir mitos e perseguir ilusões. Não há critérios substantivos para validarem as opções.

Publicado por Joana às setembro 26, 2004 11:51 PM

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Comentários

(...)Como é normal nas facções radicais, a sua expressão mediática é muito superior à sua efectiva representação no corpo social em que se movem. A sua truculência e a forma como menorizam aqueles que não partilham as suas opiniões confere-lhes um peso comunicacional completamente desproporcionado em face do peso social das suas convicções. Os seus líderes ficam de tal forma empolgados pelo ruído que produzem, que se atribuem, a si próprios, uma aceitação social muitíssimo superior à que realmente têm.(...)

joana, este parágrafo não era sobre PPortas ?

Publicado por: zippiz às setembro 27, 2004 01:26 AM

já sei !
era sobre o FLouçã !

Publicado por: zippiz às setembro 27, 2004 01:27 AM

“A sua truculência e a forma como menorizam aqueles que não partilham as suas opiniões confere-lhes um peso comunicacional completamente desproporcionado em face do peso social das suas convicções.”

Estaremos, finalmente, a entrar numa fase autocrítica?

Publicado por: Marapião às setembro 27, 2004 04:12 AM

"Como é normal nas facções radicais, a sua expressão mediática é muito superior à sua efectiva representação no corpo social em que se movem."
"É normal, é sempre assim, foi sempre assim,..."

Foi assim com Herr Adolf Hitler e os seus truculentos seguidores?
Ou será que essa "teoria" só se aplica à chamada esquerda radical?

Publicado por: Senaqueribe às setembro 27, 2004 10:20 AM

zippiz em setembro 27, 2004 01:27 AM:
Por acaso estava a pensar em Manuel Alegre. Mas serve para muitos ...
Mesmo para o BSS.

Publicado por: Joana às setembro 27, 2004 10:27 AM

Senaqueribe em setembro 27, 2004 10:20 AM:
Infelizmente, não. Como sabe Hitler subiu ao poder porque o NSDAP tornou-se, no espaço de 3 ou 4 anos, o principal partido da Alemanha.
Justamente devido a essa truculência, Hindenburg (o PR) resistiu bastante tempo a indigitá-lo chanceler, até que se convenceu que não era possível estabilidade governativa e parlamentar sem os nazis no governo. Aliás, no primeiro governo de Hitler os nazis só tinham 3 pastas.
Sabe-se ao que é que essa "estabilidade" conduziu depois.

Publicado por: Joana às setembro 27, 2004 10:33 AM

Concordo em absoluto com a sua análise

Publicado por: Rui Sá às setembro 27, 2004 03:43 PM

Joana em setembro 27, 2004 10:33 AM

Pois é, políticos truculentos e facções radicais não faltam por esse mundo fora.
E por cá também há vários exemplos. De todos os quadrantes, e a todos os níveis, sem excepção! Antes de alcançarem o poder e durante a sua permanência nele. Por vezes eterna...

Publicado por: Senaqueribe às setembro 27, 2004 04:27 PM

Com o Sócrates, o PSL vai à vida! eh eh eh eh eh eh eh eh eh

Publicado por: Compère às setembro 27, 2004 06:54 PM

Joana em setembro 27, 2004 10:27 AM

já sei , lembrei-me agora ;
o tal parágrafo era sobre o beato Félix !

Publicado por: zippiz às setembro 27, 2004 09:31 PM

Bagão Félix um radical de esquerda? Nã me cheira.
E daí. Com aquela mania dos pobrzinhos e dos ricos que paguem a crise

Publicado por: fbmatos às setembro 27, 2004 10:10 PM

Bagão Félix um radical de esquerda? Nã me cheira.
E daí. Com aquela mania dos pobrzinhos e dos ricos que paguem a crise

Publicado por: fbmatos às setembro 27, 2004 10:10 PM

A sinistra mais sinistra do PS entregou a alma ao Criador.

A familia feudal julgava que a coutada era uma doação hereditária.

A SIC "balsâmica" e o PÚBLICO "belmirista" já possuem o seu "Produto Mediático".

A familia da "mãozinha" já vê o "Produto Mediático" como PM da coutada.

Aquele "velhaco" que aparece,depois das 21H00,na TVI,todos os domingos, já considerou o dito produto como o mais perigoso para o causador da sua grande dor de corno.

Assim,o cenário está montado para a reedição do Guterrismo mais musculado e menos dialogante.

Não foi o "produto" que teve enorme dificuldade em decidir sobre incineração,co-incineração e outros termos ambientais e ecológicos?

A propósito,quando e quanto estão previstos os aumentos salariais?

A rapaziada nacional costuma ter fraca memória sobre alguns "dissabores" do passado.

Não estou nada interessado na compra da reedição revista e melhorada do "Produto Mediático".

Não tenho dúvidas que uns aumentozinhos vinham mesmo a calhar,antes que o "Produto Mediático" inicie a sua actividade de palrador ou de vendedor de sonhos filosóficos da velha Grécia.

Poupem-me a mais "picaretas falantes"!

Joana,"amicus Socrates sed magis amicus veritas"
Deve ser mais ou menos assim neste latim "macarrónico"!

Publicado por: ZEUS8441 às setembro 28, 2004 12:58 AM

Você atira a matar.

Publicado por: AJ Nunes às setembro 29, 2004 04:35 PM

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