« Verba non Res | Entrada | Alguém me explica? »

maio 01, 2005

País Paralelo

A questão da identificação fiscal dos imóveis que o Ministério das Finanças tem tentado regularizar há mais de um ano, que tem sido objecto de diversas prorrogações e à qual foi dada uma terceira prorrogação, cujo prazo termina agora no fim de 2005, seria surrealista num país civilizado. Num total de 6.166.008 prédios, 3.716.350 prédios continuam sem identificação fiscal. Após um ano, duas prorrogações e diversas ameaças, os prédios devidamente identificados ainda não atingem os 40%.

Portugal tem cerca de 9 milhões de hectares. Faltam identificar 3.113.535 rústicos e 602.815 urbanos, ou seja, os prédios rústicos por identificar devem ter, na sua quase totalidade, uma área bastante inferior a 1 hectare. A maioria desses prédios rústicos deve ter um valor venal inferior aos custos da sua regularização. O preferível para muitos desses proprietários é o deixar andar e utilizarem a sua terra, escudados do direito consuetudinário e no reconhecimento dos vizinhos, como as pequenas hortas nas zonas de protecção das auto-estradas.

Sim, porque a causa primeira desta situação não é a baixa ou nula alfabetização do meio rural português. A causa primeira é a burocracia pesada e estúpida. É extremamente complicado actualizar o registo de um prédio. Têm que ser feitas actualizações nas respectivas Conservatórias do Registo Predial e Repartições de Finanças e uma total compatibilização entre áreas e confrontações nos registos existentes. Se os últimos registos, frequentemente feitos há muitas décadas, ou mesmo centenários, não coincidirem exactamente nas áreas, o processo de regularização é infernal.

Nesta matéria, o que há de pior, de mais obsoleto, de mais estupidamente burocrático, são as Conservatórias Prediais. E tudo o que meta Conservatórias Prediais é moroso, obriga a inúmeras diligências, a permanecer em filas de espera intermináveis, muitas e repetidas vezes, e é caro. Encareceu substancialmente nos últimos anos, justamente antes de ser lançada a campanha de regularização dos registos. É a vertigem da burocracia exploradora – deveria ter previamente simplificado os procedimentos em vez de os encarecer.

Quando se falou na regularização dos registos, apercebi-me que se iria traduzir no mais completo caos. Nem o governo nem a Administração Fiscal fazem ideia do país que têm. E deveriam fazer, se a informação circulasse na máquina estatal. Estive algumas vezes numa repartição de finanças de uma cidade de província e sempre achei curioso que, em média, em cada 20 pessoas, 19 estivessem no balcão da Autárquica/Sisa. É uma cidade de vinte mil habitantes, capital de distrito e com bastante comércio e indústria. Todavia a maioria dos utentes estava na zona “predial”. Actividades que representam menos de 20% da actividade económica, ocupavam mais de 90% do atendimento.

Voltei lá há dois meses. Felizmente apenas precisava de ir à Tesouraria, pois na Repartição não cabia mais uma agulha. Estavam munidos de senhas de atendimento e presumi que estivessem todos a tentarem, desesperadamente, resolver o(s) problema(s) de registo de imóveis.

Para além da complexidade desnecessária destes procedimentos e os custos das certidões, apresentações, registos, etc., ainda haverá, em muitos casos, escrituras de habilitações de herdeiros a fazer, impostos sucessórios a liquidar, etc., etc.. Muitos imóveis foram transmitidos por herança sem que as respectivas escrituras de partilhas fossem realizadas, registadas e liquidados os respectivos impostos. Ou constituem ainda heranças indivisas. Em muitos casos poderá ter havido mais que uma transmissão sem registo e os primitivos herdeiros já nem existirem.

Vai ser muito difícil introduzir ordem neste caos alimentado ao longo de séculos pela burocracia estatal e facilitado pela ignorância das gentes e pela sua aversão e receio da rapacidade da máquina estatal. Não vai ser apenas difícil ... vai produzir muitas injustiças e deixar muitos ressentimentos.

Após um ano, duas prorrogações e diversas ameaças, os prédios devidamente identificados ainda não atingem os 40%. Esta situação devia-nos fazer meditar sobre a situação da esclerosada máquina do Estado. E no país paralelo que se criou como defesa contra essa máquina esclerosada e odiosa. Não é uma doença recente, ela arrasta-se há séculos e continuamos a não encontrar remédio para ela.

E se no fim deste ano continuar a haver milhões de prédios por actualizar? Que fará o governo? O Estado constituir-se-á em herdeiro, ele próprio? Permitirá aos actuais “proprietários” inscreverem os imóveis utilizando a figura do “usucapião”, simplificando todos os procedimentos? E como assegurar a regularidade e a justiça destes actos?

Publicado por Joana às maio 1, 2005 07:33 PM

Trackback pings

TrackBack URL para esta entrada:
http://semiramis.weblog.com.pt/privado/trac.cgi/85154

Comentários

Bem visto, Joana... uma nova Lei Mental fazia muito jeito agora!

Com dois artigos, sugiro eu: O primeiro referente aos prédios não registados, o segundo referente ao QI mínimo exigível aos governantes...

Publicado por: P Vieira às maio 1, 2005 08:31 PM

Na verdade há um país completamente arredado do funcionamento geral

Publicado por: Domino às maio 2, 2005 12:42 AM

Não são meia dúzia, nem são gente de posses que fogem ao fisco. São milhões de portugueses que estão fora do circuito, provavelmente os mais pobres dos meios rurais

Publicado por: Domino às maio 2, 2005 12:44 AM

Eu acho que essa gente devia ser ajudada e não complicar-lhes a vida.

Publicado por: Sa Chico às maio 2, 2005 12:46 AM

A Joana condena, diligentemente e com alguma razão, o Estado, mas devia condenar também e em primeiro lugar o povo.

Porque a culpa primeva desta situação ridícula é o sistema de herança ridículo que Portugal possui, no qual a propriedade é, em princípio, dividida por entre todos os descendentes dos falecidos.

É este sistema de herança que faz com que a maioria dos prédios rurais em Portugal tenha menos de um hectare de área, e com que, frequentemente, um prédio seja propriedade de um coletivo de pessoas ("herdeiros de...").

A origem do mal não está na complexidade burocrática do Estado. A origem do mal está no sistema de herança.

Publicado por: Luís Lavoura às maio 2, 2005 09:37 AM

"seria surrealista num país civilizado"

Há outras coisas surrealistas em Portugal. Uma delas é o facto de o Estado não saber, em princípio, qual a morada de cada cidadão. Ou seja, um cidadão português pode mudar de morada, inclusivé emigrar, e não é obrigado a comunicar esse facto ao Estado. Na Alemanha, e penso que na generalidade dos países europeus, qualquer pessoa que neles more (seja cidadão nacional ou imigrante) é obrigado a ter uma morada registada, morada na qual, por lei, deverá sempre ser contactável. Em Portugal, o Estado quando quer contactar um seu cidadão não sabe, pura e simplesmente, onde ele pára. O cidadão pode estar registado com uma morada para o bilhete de identidade, outra para a repartição de finanças, outra para o recenseamento eleitoral... e todas elas não serem a sua morada verdadeira e atual!

É, de facto, surrealista.

Publicado por: Luís Lavoura às maio 2, 2005 12:26 PM

O sistema de herança faz parte dos procedimentos legais. Os pais não podem dispor de mais de um terço para testarem. O resto é sempre herdado em igualdade de circunstâncias pelos herdeiros de acordo com regras legais.
Nem sequer podem doar mais de um terço dos seus bens. Também não podem vender aos filhos. Só a estranhos.

Publicado por: Joana às maio 2, 2005 01:17 PM

Aliás, não percebo. Você quer ressuscitar o sistema de morgadios que foi abolido com a queda do regime feudal após as guerras liberais?

Publicado por: Joana às maio 2, 2005 01:18 PM

Esta situação é completamente caricata, acho que não vão consegui-la resolver e ainda vai dar pano para mangas.

Publicado por: V Forte às maio 2, 2005 02:22 PM

Publicado por: Joana às maio 2, 2005 01:17 PM

Sim Joana, mas a questão é a do fideicomisso. Nós somos apenas fiduciários perante as gerações vindouras. Ou pretende ser a fideicomissária?

Publicado por: pyrenaica às maio 2, 2005 02:28 PM

Joana às maio 2, 2005 01:17 PM

Sei que há na Europa basicamente 3 sistemas de herança:

a) O sistema alemão, no qual toda a propriedade do pai é herdada automaticamente pelo filho mais velho, sendo que todos os outros filhos ficam sem nada.

b) O sistema português, em que a propriedade é dividida em partes iguais entre os diversos filhos, sendo que, caso não seja dividida, fica propriedade de todos eles em conjunto.

c) O sistema inglês, em que a propriedade é legada por meio de testamento a seja quem fôr que o seu proprietário queira (não necessariamente aos filhos).

Estes três sistemas estão codificados em leis destes países.

O nosso sistema conduziu-nos ao colapso, como se vê no Norte do país (isto é, em todo o lado exceto no Alentejo), com a propriedade excessivamente dividida, propriedades com 10 metros quadrados por vezes (o meu pai tinha uma com essa área: consistia numa só oliveira), sem qualquer viabilidade económica nem racionalidade.

Seria bom pensarmos nalgum outro sistema.

Talvez os morgadios, quem sabe.

Publicado por: Luís Lavoura às maio 2, 2005 02:30 PM

Decreto-Lei n.º 59/91
Altera o Decreto-Lei n.º 103/90, de 22 de Março, que desenvolve as bases gerais do regime de emparcelamento e fraccionamento de prédios rústicos (primeira alteração).

Publicado por: asdrubal às maio 2, 2005 03:44 PM

É uma situação própria de um país subdesenvolvido

Publicado por: Filipa Sequeira às maio 6, 2005 08:34 PM

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)